Megan Harmes, aos 24 anos, está se reerguendo após um intenso período de dependência de cetamina, uma droga que ela experimentou pela primeira vez aos 14 anos. Após quatro semanas de tratamento em um programa de reabilitação, ela se sente fisicamente melhor, embora os danos que a substância causou à sua bexiga ainda sejam uma incógnita. O relato de Harmes é emblemático de uma crise crescente entre os jovens no Reino Unido, onde o uso de cetamina se tornou alarmantemente comum.
O centro de reabilitação Kaleidoscope, onde Harmes busca apoio, revelou um aumento drástico nos encaminhamentos para tratamento de dependência de cetamina. Em apenas cinco anos, o número saltou de apenas duas pessoas em 2021 para 112 em 2023, a maioria na faixa etária de 18 a 24 anos. Esse cenário reflete uma mudança preocupante nas dinâmicas de consumo, especialmente entre os jovens que, durante a pandemia, se viram mais expostos ao uso de drogas.
A cetamina, que é um anestésico dissociativo legalmente controlado no Reino Unido e no Brasil, é frequentemente utilizada de forma recreativa, levando a sérios problemas de saúde. Estima-se que 264 mil pessoas entre 16 e 59 anos tenham consumido a droga ilegalmente no Reino Unido entre 2024 e 2025, evidenciando um padrão de uso crescente que requer uma resposta adequada dos serviços de saúde.
A experiência de Harmes é apenas uma entre muitas. Durante a pandemia, ela se viu presa em um ciclo vicioso de consumo que afetou sua vida profissional e pessoal. “A droga praticamente reprimia tudo”, disse ela, refletindo sobre como a cetamina a ajudava a lidar com transtornos como o TDAH e a personalidade borderline. No entanto, o preço pago foi alto, incluindo a perda de dignidade ao ter que usar absorventes para incontinência urinária.
Jo Moore, responsável pela clínica Birchwood da Kaleidoscope, destacou que, enquanto o tratamento para dependentes de cetamina evolui, ainda há um grande desafio em lidar com as complexidades médicas que a droga provoca. A necessidade de adaptar os serviços de saúde para atender a um público jovem, que muitas vezes inicia o uso na adolescência, é urgente. “Estamos começando a ver que ações educativas nas escolas estão fazendo a diferença”, afirmou Moore, embora reconheça que muitos ainda precisam de suporte contínuo.
Pesquisadores como Darren Quelch, da Universidade do Sul do País de Gales, estão realizando estudos para entender melhor os efeitos da cetamina e como tratá-la de forma eficaz. A falta de conhecimento sobre como a droga impacta a saúde a longo prazo torna a situação ainda mais crítica. “As recaídas são um grande problema entre esses pacientes”, disse Quelch, ressaltando que a recuperação pode ser mais difícil após o uso contínuo.
Mark, um ex-dependente que prefere manter sua identidade em sigilo, compartilha que sua saúde deteriorou a ponto de levar uma vida marcada por dor e solidão. A transformação que a dependência causou em sua vida foi devastadora, e o apoio de pessoas que passaram por experiências semelhantes foi crucial para sua recuperação. Ele agora se dedica a ajudar outros, reconhecendo a importância de ter alguém que compreenda a luta contra a dependência.
No cenário atual, tanto as instituições de saúde quanto as organizações de apoio devem se unir para enfrentar o crescente problema do uso de cetamina entre os jovens. A conscientização e a educação são fundamentais para prevenir que mais pessoas se tornem vítimas dessa droga, enquanto a criação de serviços adaptados às necessidades desse público é essencial para garantir um futuro mais saudável.




