O câncer de pulmão, tradicionalmente associado a homens idosos e fumantes, tem apresentado uma nova face nos últimos anos. Cada vez mais, mulheres, jovens e pessoas que nunca fumaram estão sendo diagnosticadas com esta doença devastadora. Dados da American Lung Association revelam que o câncer de pulmão se tornou a principal causa de morte por câncer entre as mulheres, superando outras doenças como o câncer de mama e o câncer colorretal. Entre 1978 e 2022, as taxas da doença aumentaram em impressionantes 79% entre as mulheres, enquanto diminuíram 43% entre os homens.
Recentemente, a notícia do diagnóstico do Papa Leão XIV, um não fumante, levantou questões sobre o crescente número de casos de câncer de pulmão entre aqueles sem histórico de tabagismo. Especialistas ressaltam que fatores como exposições ambientais e predisposições genéticas podem ser responsáveis por esse fenômeno. A detecção precoce, especialmente em casos como o do Papa, pode permitir tratamentos eficazes, mas o atual protocolo de rastreamento não inclui pessoas que nunca fumaram, resultando em diagnósticos tardios.
Como oncologista torácico, frequentemente atendo mulheres jovens que ficam surpresas ao saber que têm câncer de pulmão. Essa realidade inesperada não só desafia as expectativas das pacientes, mas também a percepção de muitos médicos, o que pode atrasar o atendimento. As razões para o aumento no número de diagnósticos entre mulheres podem estar ligadas ao fato de que muitas começaram a fumar mais tarde do que os homens, assim como a utilização de cigarros com filtro, que aumentam o risco de um tipo específico de câncer, o adenocarcinoma.
É alarmante notar que cerca de 20% das mulheres diagnosticadas com câncer de pulmão nunca fumaram, um número que supera a proporção entre homens. Além do tabagismo, outros riscos incluem histórico familiar, exposição ao amianto e poluição do ar. Os estudos ainda estão investigando o impacto dos cigarros eletrônicos e da fumaça da maconha, além de possíveis predisposições genéticas que podem aumentar o risco de desenvolver a doença.
Em 2021, as diretrizes de rastreamento do câncer de pulmão foram atualizadas para incluir uma faixa etária mais ampla, permitindo que mulheres e homens com histórico de tabagismo, mesmo que breve, possam realizar exames de tomografia computadorizada. Contudo, enquanto mais de 70% das mulheres elegíveis se submetem ao rastreamento do câncer de mama, menos de 6% fazem o mesmo para o câncer de pulmão.
A detecção precoce, aliada a novas terapias direcionadas e imunoterapias, tem proporcionado prognósticos mais favoráveis, especialmente entre mulheres não fumantes. Entretanto, os sintomas do câncer de pulmão, como tosse persistente e falta de ar, muitas vezes são confundidos com outras condições, o que pode levar a atrasos na busca por tratamento. Em um cenário onde a percepção sobre o câncer de pulmão está em mudança, reconhecer os sinais precoces e ampliar as diretrizes de rastreamento são passos cruciais para enfrentar essa epidemia crescente entre as mulheres.
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