sábado, 31/10/2026

Reflexões sobre o SUS e lições da crise do sistema de saúde britânico: a centralidade do médico na assistência no Brasil

A trajetória do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil pode ser compreendida através da experiência do National Health Service (NHS) do Reino Unido, que serviu como modelo inspirador na sua concepção. A médica…

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A trajetória do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil pode ser compreendida através da experiência do National Health Service (NHS) do Reino Unido, que serviu como modelo inspirador na sua concepção. A médica Ana Luíza Gibertoni Cruz, que atuou tanto no SUS quanto no NHS, observa as semelhanças e os desafios que ambos os sistemas enfrentam atualmente, especialmente em um contexto de envelhecimento populacional e crescente demanda por serviços de saúde.

Enquanto o NHS atravessa uma crise significativa, marcada por filas de espera e escassez de recursos, o Brasil também vê refletidos em seu sistema problemas como a desigualdade no acesso e a necessidade de maior investimento. Ana Luíza, que atualmente trabalha em um hospital de Oxford, destaca que a crise do NHS é resultado de anos de cortes orçamentários, aumento da expectativa de vida e um crescimento exponencial nas doenças crônicas que afetam a população.

As longas esperas por atendimento e a variação na qualidade dos serviços entre diferentes regiões são dificuldades comuns tanto em solo britânico quanto brasileiro. No NHS, a centralização do atendimento em grandes hospitais tem sido criticada, levando a um plano de reforma que busca descentralizar os serviços e priorizar a atenção primária. Essa abordagem, que inclui o fortalecimento dos centros de saúde locais e a digitalização dos serviços, serve de alerta para o Brasil, onde a regionalização do SUS ainda precisa ser aprimorada.

A desigualdade no acesso à saúde é uma preocupação compartilhada entre os dois países. Ana Luíza, que observa essa realidade diariamente, nota que as disparidades nos atendimentos refletem não apenas a localização geográfica, mas também a capacidade econômica das regiões. Comparações entre a estrutura de saúde do Reino Unido e do Brasil revelam que, apesar de ambos os países enfrentarem desafios semelhantes, o Brasil lida com um território imenso e uma população consideravelmente maior, o que torna a gestão do SUS uma tarefa ainda mais complexa.

A questão da distribuição de profissionais de saúde é outro aspecto crítico. No Brasil, a concentração de médicos em áreas urbanas contrasta com a escassez em regiões mais remotas, enquanto o NHS enfrenta a falta de médicos de atenção primária. Especialistas apontam que a formação de mais especialistas hospitalares em detrimento de médicos generalistas pode ser um erro que ambos os sistemas devem corrigir. A experiência do NHS em reter profissionais através de políticas de bem-estar pode servir de modelo para o Brasil, onde o burnout e a exaustão são preocupações crescentes entre os trabalhadores da saúde.

Com o envelhecimento da população, o Brasil se vê em uma posição delicada, já que a rápida transição demográfica exige uma adaptação urgente do sistema de saúde. A integração entre saúde e assistência social que vem sendo desenvolvida no Reino Unido pode ser uma estratégia a ser adotada pelo Brasil, onde cada vez mais idosos necessitarão de cuidados não apenas médicos, mas também sociais.

O financiamento adequado e uma gestão eficaz são fundamentais para qualquer reforma bem-sucedida. A experiência britânica mostra que, para além de quanto é gasto, é crucial avaliar como e onde os recursos são alocados. O Brasil, com um SUS subfinanciado e uma estrutura federativa complexa, precisará enfrentar esses desafios para garantir um futuro mais equitativo e eficiente em saúde pública.