sábado, 31/10/2026

Câncer gástrico: uma condição muitas vezes assintomática e difícil de detectar

A saúde dos idosos, frequentemente negligenciada fora do âmbito geriátrico, ganha um espaço especial com o 1º Congresso Brasileiro sobre a Saúde Digestiva da Pessoa Idosa (Gastro 70+), programado para ocorrer em São Paulo…

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A saúde dos idosos, frequentemente negligenciada fora do âmbito geriátrico, ganha um espaço especial com o 1º Congresso Brasileiro sobre a Saúde Digestiva da Pessoa Idosa (Gastro 70+), programado para ocorrer em São Paulo no final deste mês. Este evento se torna ainda mais relevante à medida que a longevidade da população brasileira traz à tona o aumento de doenças graves, como o câncer gástrico, que atualmente registra de 20 mil a 25 mil novos casos anualmente. Projeções alarmantes indicam que, em 2050, esse número pode ultrapassar 40 mil.

Em uma conversa com o gastroenterologista Luiz Gonzaga Vaz Coelho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e um dos pioneiros no estudo da bactéria Helicobacter pylori, ficou claro o impacto dessa bactéria na saúde digestiva dos idosos. Coelho explica que a infecção por H. pylori, que geralmente ocorre na infância, pode permanecer assintomática durante anos. “Cerca de 1% das pessoas infectadas desenvolverá câncer gástrico por volta dos 60 anos,” detalha o especialista, ressaltando a gravidade da situação.

A Organização Mundial da Saúde classifica a H. pylori como um carcinógeno de Grupo 1, o que significa que há evidências definitivas de sua ligação com o câncer, colocando-a ao lado de substâncias como o tabaco. Em países como Japão e Coreia do Sul, onde as taxas de câncer gástrico são alarmantes, políticas públicas foram implementadas para rastrear a presença dessa bactéria na população, visando um diagnóstico mais precoce.

Embora o tratamento da infecção por H. pylori seja relativamente simples, envolvendo o uso de antibióticos, o desafio está na ausência de sintomas, que muitas vezes impede o diagnóstico precoce. Coelho observa que, devido à natureza assintomática da infecção, muitas pessoas podem não perceber que estão passando por uma inflamação crônica que, com o tempo, pode evoluir para um câncer.

Os métodos de diagnóstico incluem a endoscopia, que permite estadiar a gastrite e até remover tumores em estágios iniciais. No entanto, o professor Coelho alerta para as precauções necessárias ao realizar endoscopias em pacientes com mais de 70 anos, destacando que a avaliação deve levar em conta a saúde geral do paciente, não apenas a idade.

A campanha Setembro Rubi, promovida pela Federação Brasileira de Gastroenterologia, busca conscientizar a população sobre o câncer gástrico e propõe um programa de rastreamento para os familiares de primeiro grau de portadores da doença, que têm um risco significativamente maior de desenvolvê-la.

Embora o sal tenha sido considerado o principal causador de gastrite no passado, a realidade é que a presença da H. pylori multiplica os riscos associados ao consumo excessivo de sal. O tabagismo também é um fator de risco, com a necessidade de uma década sem fumar para que o risco se iguale ao da população geral. Infelizmente, os sinais da doença costumam aparecer em estágios avançados, incluindo emagrecimento, dor persistente no estômago e sangue nas fezes.

O Congresso Gastro 70+ ocorrerá nos dias 30 e 31 de outubro, no auditório do Iamspe, em São Paulo. É uma oportunidade não apenas para discutir a saúde digestiva dos idosos, mas também para reforçar a importância do diagnóstico precoce e da conscientização sobre doenças que afetam essa faixa etária tão vulnerável.

Crédito da imagem: Foto: Pixabay — 9927881 (pixabay)