Em um esforço para detectar precocemente o papilomavírus humano (HPV) e prevenir o câncer de colo do útero, o Sistema Único de Saúde (SUS) processou 93 mil amostras de DNA-HPV em 2026, identificando o vírus de alto risco em 9.904 delas, o que representa pouco mais de 10%. Essa iniciativa é parte de uma estratégia mais ampla que visa rastrear e acompanhar as mulheres antes que as infecções evoluam para situações mais graves.
Os dados, divulgados exclusivamente para o g1 pelo Ministério da Saúde, revelam que, desde o ano passado, foram coletadas um total de 153 mil amostras. O teste, que já está disponível em 26 das 27 unidades da federação, é realizado de forma gradual, começando por pelo menos um município em cada estado. O Espírito Santo, por sua vez, ainda aguarda a implementação do rastreamento, dependendo da finalização de etapas organizacionais locais.
O teste de DNA-HPV se diferencia do tradicional Papanicolau, que foca na análise das células do colo do útero. Ao invés disso, a nova abordagem busca o material genético do vírus, incluindo os tipos 16 e 18, que estão mais diretamente associados ao câncer. Um resultado negativo permite que a próxima coleta seja feita apenas após cinco anos, enquanto um resultado positivo requer ações específicas baseadas no tipo de vírus identificado.
As diretrizes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) preveem que a detecção dos tipos 16 ou 18 resulta em um encaminhamento imediato para colposcopia, onde o médico pode examinar o colo do útero com maior detalhe e, se necessário, realizar uma biópsia. Para outros tipos de vírus de alto risco, uma análise das células da amostra é realizada antes da decisão sobre a colposcopia.
O material para o teste é coletado por profissionais nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), e em alguns casos, as próprias pacientes podem realizar a coleta após orientação. Os kits utilizados são elaborados pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), que faz parte da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Enquanto isso, a capacitação de gestores e equipes das UBS para a nova metodologia de rastreamento já está em andamento em todo o país. No Espírito Santo, a previsão é que os materiais necessários sejam enviados ainda este ano, e o ministério está analisando novas tecnologias para diversificar as opções de testes disponíveis no SUS.
A infecção pelo HPV, que é a principal causadora do câncer de colo do útero, ocorre frequentemente por meio do contato sexual. Embora a maioria das infecções seja eliminada naturalmente pelo organismo, as que persistem podem levar a alterações nas células do colo do útero, resultando em lesões que, se não tratadas, podem evoluir para o câncer.
O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas, enfatiza a importância da detecção precoce: “Poucas doenças demonstram tão claramente o impacto positivo da detecção precoce. A taxa de cura ultrapassa 90% quando o tumor é identificado a tempo”. Este panorama ressalta a relevância do rastreamento, não apenas para a saúde individual, mas também para a saúde coletiva, com o câncer de colo do útero se configurando como um indicador crucial da qualidade dos serviços de oncologia no Brasil.
Estima-se que, entre 2026 e 2028, cerca de 19,3 mil novos casos de câncer de colo do útero surgirão anualmente no Brasil. Embora a doença nas fases iniciais possa ser assintomática, sintomas como sangramento anômalo e dor podem ser sinais de alerta que demandam avaliação médica. A vacinação contra o HPV também é uma medida preventiva eficaz, com taxas de cobertura entre crianças e adolescentes que superam a média mundial.
Crédito da imagem: DNA-hpv, exame que identifica alto risco de vírus




